Pensando filosoficamente o Balanced Scorecard

Kaplan e Norton, a dupla criadora do Balanced Scorecard (BSC)

O Balanced Scorecard (BSC) foi criado pela dupla Kaplan e Norton, com sua origem no final dos anos 1980 e trata de quatro perspectivas da organização: Aprendizagem e Crescimento; Processos Internos; Clientes (ou Marketing) e Finanças.

A administração tem por práxis, sempre considerar essas quatro as grandes áreas de uma organização, as que têm a maior concentração de esforços para administrar.

A perspectiva de Aprendizagem e Crescimento trata dos programas de capacitação e do recrutamento, seleção, motivação e manutenção da equipe de trabalho, sendo, em suma, responsável pelo Capital Intelectual da organização.

Quando se trata de Processos Internos, consideram-se os processos produtivos, as inovações operacionais e questões ligadas à produtividade, eficiência e eficácia.

As questões relacionadas ao mercado, expansão territorial, aumento de market share, desenvolvimento de produtos, estratégias de precificação, distribuição e comunicação e muitas outras são tratadas na perspectiva Clientes, restando, à de Finanças, as considerações relacionadas à retorno de investimento, aumento de lucratividade e, quase sempre, redução de custos produtivos, entre muitos outros indicadores financeiros possíveis.

Exemplo do BSC, onde se percebe a interconexão entre os objetivos traçados nas diversas perspectivas.

Para cada uma destas perspectivas, dependendo do nível organizacional em que se está aplicando a ferramenta, são desenvolvidos objetivos que são interconectados, quer dizer, as melhorias em Aprendizagem e Crescimento estão relacionadas às de Processos Internos que, por sua vez, possuem reflexos nas de Clientes que, resultam nos objetivos da perspectiva Financeira.

A perspectiva financeira, aliás, somente mede o resultado do esforço de todo o resto da organização, não se produz dinheiro nas empresas (a não ser na Casa da Moeda) ou se o empreendimento for uma ilícita aventura pela falsificação de moedas, o que não caracteriza um empreendimento válido.

Agora, a questão filosófica.

Lendo a obra “Como pensar sobre as grandes ideias”, de Mortimer Adler, lançado pela É Editora no Brasil, me deparo, no capitulo 16, com o tema Como pensar sobre o bem e o mal, não havendo problema nenhum sobre o assunto.

Em certa parte do texto, o autor menciona os quatro tipos de bem: os bens exteriores (ou externos), os bens corpóreos, os bens sociais e os bens da alma.

Os bens exteriores são as coisas que temos como riqueza, como os bens econômicos e serviços que empregamos e as mercadorias. Os bens corpóreos são coisas como saúde, os prazeres físicos e o descanso. Com relação aos bens sociais, tem-se os amigos e a sociedade em que vivemos e, relativos aos bens da alma são o conhecimento, a verdade, a sabedoria e as virtudes morais. E essas definições são bem anteriores aos estudos da Administração e, por consequência, bastante anteriores aos de Kaplan e Norton sobre o Balanced Scorecard.

O autor comenta que a base do desenvolvimento humano são os bens da alma, os únicos que são de total responsabilidade do indivíduo. Com bom desenvolvimento intelectual, pode-se desenvolver os bens corpóreos e os bens sociais e, por meio destes, conseguem-se os bens externos.

E, qual o relacionamento disto com o Balanced Scorecard?

Da mesma forma que a perspectiva de Aprendizagem e Crescimento é responsável pelo capital intelectual da organização, os bens da alma o são para o homem. Quando se fala de bens corpóreos, pode-se fazer direta analogia à perspectiva dos Processos Internos, pois tratam da questão do fortalecimento e manutenção do corpo da organização.

Estar bem em sociedade, atuar em uma sociedade e ter amigos, quer dizer que a pessoa é bem vista pelos olhos dos que a rodeiam, tal como é esperado atingir com a perspectiva mercadológica (clientes) tratada no Balanced Scorecard.

Por fim, a perspectiva financeira trata dos resultados da organização, visa a realização de lucro, a sustentabilidade da empresa e a redução de custos, similar ao que a pessoa visa com os bens exteriores, em certa medida.

Claro que estas analogias fazem uso de uma elasticidade conceitual, mas pode-se afirmar, com certa razão, que quando a empresa elabora o seu Balanced Scorecard, está pensando filosoficamente sua existência e seu relacionamento com o futuro e os bens que pretende adquirir.

Da mesma forma, os bens mais importantes são os relacionados à capacitação da pessoa, os bens da alma e/ou a perspectiva de Aprendizagem e Crescimento, pois alicerça todas as outras ações pessoais e/ou organizacionais, pois, como o autor (Adler) afirma, são os únicos bens que não estão sujeitos à sorte, são “os únicos que estão inteiramente sob meu controle, inteiramente dentro do alcance de minhas forças de escolha e ação”.

É praticamente impossível afirmar que Kaplan e Norton fizeram tal embasamento filosófico para desenvolver suas teorias, modelos e ferramentas, penso que a visão dos autores foi mais embasada vivência que possuíam do cotidiano das organizações e nos estudos administrativos, que tratam estas áreas (finanças, marketing, processos e gestão de pessoas), as principais áreas da administração.

Grandes conhecimentos estão guardados nos clássicos – da filosofia e da administração – e fazer a “conversa” entre estes universos gera boas discussões. Busque-os, aprenda com eles, elabore suas teorias e análises e compartilhe seus achados com o mundo.